Quando “Master of Puppets” saiu em 1986, muita gente ouviu aquilo e pensou: “isso aí não é humano”. E, em parte, a sensação tem um motivo bem concreto: alguns trechos rápidos do álbum não foram capturados exatamente do jeito que você imagina, em velocidade final, do começo ao fim, tudo “no braço” sem nenhum ajuste.
O ponto não é desmerecer a banda – até porque o Metallica sempre tocou essas músicas ao vivo (às vezes até mais rápido). A questão é que, no estúdio, existe um caminho clássico para chegar num resultado mais preciso, mais agressivo e com aquele “encaixe” que vira referência. No caso, mexendo na velocidade da fita.
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Foto: Reprodução – Master Of Puppets
Quem contou isso foi Flemming Rasmussen, produtor que trabalhou com o Metallica, ao falar sobre as dificuldades e soluções de estúdio na época, em fala resgatada pela Metal Injection: “Eu sei que algumas das músicas em ‘Master of Puppets’ nós na verdade gravamos elas mais baixas e depois fizemos ‘varispeed’ pra cima, para ficar ainda mais ‘redondo’ – esse é um dos truques que você pode usar no estúdio. Mas, sim, eu não lembro desse ponto específico. Era só difícil pra ele fazer aquilo e, claro, se você consegue pular isso, você quer pular.”
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A palavra-chave aí é varispeed: você grava em uma velocidade e depois muda a velocidade de reprodução. O resultado final não é só “mais rápido”. Ele muda a sensação de ataque, muda a tensão, muda a impressão de “máquina”, especialmente em partes com palhetada para baixo, em sequência, no limite.
Quem explicou o mecanismo com mais detalhe foi o produtor Eyal Levi. Ele descreveu o processo como era feito no analógico e por que isso altera tanto a percepção: “Para ‘Master of Puppets’, eles gravaram algumas das partes rápidas e técnicas um pouco mais lentas e também afinados um pouco mais baixo. Aí eles aceleraram a fita analógica na reprodução. Isso fez duas coisas. Primeiro, fez a performance final soar absurdamente apertada e precisa em velocidades quase desumanas. Fazer downpicking na música ‘Master of Puppets’ ainda é brutalmente difícil. Você devia tentar. Boa sorte. Segundo, acelerar a fita subiu o pitch das guitarras, dando esse brilho e ataque únicos.”
– CLI
Ou seja: não foi um “efeito psicodélico” ou brincadeira de estúdio. Foi uma maneira de chegar no nível de precisão que aquela música pedia, sem perder o impacto. O Levi ainda chama atenção para como essa lógica continua viva até hoje: “O motivo pelo qual o Metallica fez isso é o que importa aqui. Não foi por um efeito psicodélico. Foi para atingir um nível de precisão e agressividade que a velocidade da música exigia. É exatamente o mesmo motivo pelo qual tantas bandas hoje pegam trechos técnicos e gravam, tipo, a 95% ou 90% da velocidade e depois levam a 100%. Então, se você acha que gravar mais devagar para acertar uma parte é um truque digital, você está errado.”
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No fim, isso ajuda a explicar por que “Master of Puppets” ficou com essa assinatura tão marcante: parece “apertado demais” para ser acidental. Tem técnica de execução, tem arranjo bem pensado, e tem engenharia de estúdio trabalhando a favor da pancada – inclusive com um efeito colateral sonoro que muita gente nem percebe: a guitarra fica com um tipo específico de brilho quando o pitch sobe junto com a aceleração.
A moral prática (sem drama) é a que o próprio texto sugere: se você já se sentiu um lixo tentando tocar “Master of Puppets” igual ao disco, calma. Tem mão pra caramba ali – mas também tem decisão de estúdio para deixar aquilo com cara de “precisão implacável”.
– CLI