Quando a história dos Beatles vira “mitologia”, muita coisa parece inevitável: como se o quarteto já tivesse nascido pronto e só faltasse o mundo descobrir. Só que, no começo, teve tentativa e erro como qualquer banda de porão. E uma das peças mais curiosas desse período é Stuart Sutcliffe: amigo próximo de John Lennon, figura importante na estética do grupo em Hamburgo, mas alguém que, nas lembranças de Paul, nunca foi exatamente “músico de verdade”.
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Foto: Mary McCartney – Universal Music
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Sutcliffe entrou como baixista numa fase em que os Beatles ainda estavam se formando na prática: testando repertório, postura de palco, tocando horas a fio, sobrevivendo no circuito. Só que, conforme a banda começou a pensar em profissionalizar tudo, a régua subiu. E aí aparece um tipo de conversa que pouca gente gosta de ouvir hoje, mas que, naquele cenário, era pragmática: se o cara não acompanha, alguém vai ter que cobrir.
A lembrança do Paul é bem crua e, ao mesmo tempo, bem “de banda”: ele diz que o Stuart gostava de música, mas não era musical, e que chegaram a pedir para ele virar de costas quando tinha foto sendo feita, porque dava para perceber que ele não estava tocando junto no mesmo tom. McCartney também comenta que, com o tempo, virou boato que ele teria “empurrado” o Stuart para fora por atritos pessoais, e ele assume que havia dificuldades, mas diz que o motivo principal era outro.
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“Ele não era muito musical, o Stuart”, disse Paul, em fala publicada na Far Out. “A gente até pedia para ele virar de costas para a câmera quando iam tirar fotos, porque sabíamos que as pessoas iam perceber que ele não estava necessariamente tocando no mesmo tom que a gente. Com o tempo, surgiu o boato de que eu o tirei da banda porque, sim, a gente tinha nossas dificuldades. Pra mim, foi principalmente porque eu não achava que ele fosse um músico muito bom – o que ele não era – e ele admitia isso.”
Isso coloca o Stuart num lugar meio ingrato: ele é lembrado como “quinto Beatle” em certas histórias, mas o papel dele ali era mais de presença, amizade e cena do que de performance. O próprio Paul descreve como um daqueles casos em que a pessoa “parece a peça certa” no visual e na atitude, mas a banda, na hora de apertar o parafuso, precisa de alguém que entregue no instrumento.
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A parte trágica é que esse recorte “banda vs. técnica” nunca teve tempo de virar vida adulta. Sutcliffe ficou em Hamburgo para seguir a arte, sua saúde piorou e ele morreu em 10 de abril de 1962, aos 21 anos, por uma hemorragia cerebral (aneurisma rompido), antes de qualquer Beatlemania existir de fato.
Paul diz que alguém é um “músico ruim” não por uma crítica direta que rende manchete, e sim por memória de estrada, com a frieza prática que banda de começo de carreira tem que desenvolver. O curioso é que, mesmo com esse diagnóstico duro, o Stuart segue presente no imaginário dos Beatles por um motivo simples: ele estava lá quando tudo ainda era risco, barulho e improviso – e isso, para muita gente, pesa tanto quanto tocar certo.
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