A morte da banda Mamonas Assassinas completou 30 anos em 2026 e voltou a ser discutida em entrevistas e programas na internet. Em um episódio do canal Além da Ciência, o divulgador científico Sergio Sacani conversou com o especialista em aviação Lito Sousa, criador do canal Aviões e Músicas, para explicar tecnicamente o que levou ao acidente que matou os integrantes da banda em 1996.
Mamonas Assassinas – Mais Novidades
Foto: Reprodução YouTube – Vevo
– CLI
Durante a conversa, Lito explicou que muitas teorias conspiratórias surgiram ao longo dos anos – incluindo a ideia de que o vocalista Dinho estaria pilotando o avião – mas afirmou que os dados oficiais não indicam isso. “O relatório final indica que quem estava nos comandos era o copiloto e quem estava no comando geral era o comandante. Isso é o que temos de evidência.”
O acidente aconteceu quando o jatinho executivo Learjet 25 tentava pousar no Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos. Segundo Lito, a aeronave se aproximou rápido demais e fora do eixo da pista. “O Learjet é um avião ‘ensaboado’, ele não perde velocidade tão rápido. Ele estava deslocado do eixo da pista e rápido.”
– GOO
Diante dessa situação, o piloto decidiu realizar uma arremetida – procedimento em que o avião interrompe o pouso para tentar novamente. O problema começou na sequência do procedimento. A comunicação com a torre demorou e, quando aconteceu, a aeronave já estava em uma posição diferente da esperada. “Ele já tinha passado por cima da pista inteira e estava virando à esquerda.”
Na carta de aproximação de Guarulhos da época, a arremetida exigia curva para a direita. A divergência entre a manobra executada e as instruções da torre gerou confusão operacional. Segundo Lito, nesse momento o piloto pediu para continuar em voo visual, o que aumentou ainda mais a dificuldade. “Era noite. Aquelas montanhas da Serra da Cantareira são escuras. Céu escuro, montanha escura… vira tudo uma coisa só.”
– CLI
Além disso, o avião voava abaixo da altitude mínima segura para a região. “Na época a altitude mínima era cerca de 6.000 pés. Eles estavam por volta de 4.500.” Enquanto tentava reorganizar a aproximação, a tripulação recebeu instrução para alongar a chamada “perna do vento” – parte do circuito de aproximação – porque havia outro avião da Varig aguardando para pousar.
Nesse processo, a aeronave continuou perdendo altitude até colidir com a Serra da Cantareira. Lito explicou que o acidente foi resultado de vários fatores combinados, incluindo comunicação confusa, fadiga da tripulação e questões operacionais. “Teve questão de fadiga, falta de experiência adequada para instrução naquele avião e várias pequenas falhas que se somaram.”
– GOO
Segundo ele, a tripulação estava trabalhando desde as cinco da manhã e havia realizado voos ao longo do dia, incluindo o transporte da banda para um show em Brasília. A pressão também era grande porque os Mamonas iniciariam no dia seguinte sua primeira turnê internacional. “Eles iam para Portugal no dia seguinte. Imagine a pressão para cumprir a missão.”
Outro fator citado foi a ausência de um sistema moderno de alerta de proximidade do solo. “Aquele avião não tinha o GPWS, que avisa quando você está perto do terreno. Se tivesse, ele teria começado a apitar.”
Segundo Lito, o sistema poderia ter dado tempo para a tripulação reagir. “Foi coisa de uns 30 metros. Se subisse um pouco mais, talvez tivesse passado pelo morro.” Hoje, sistemas como o Ground Proximity Warning System são comuns na aviação moderna e ajudam a evitar acidentes desse tipo.
– CLI
Para o especialista, a tragédia também deixou lições importantes para a segurança aérea, especialmente no controle de fadiga de tripulações e na padronização de procedimentos operacionais.
O acidente matou os cinco integrantes da banda – Dinho, Bento Hinoto, Júlio Rasec, Samuel Reoli e Sérgio Reoli – além da tripulação e de um segurança. Três décadas depois, o caso continua sendo lembrado como uma das maiores tragédias da música brasileira e um marco na história da aviação no país.
– GOO