Paul Gilbert sempre foi lembrado como aquele guitarrista de mão leve e velocidade absurda, mas, nos últimos anos, ele tem falado cada vez mais sobre canto, mas não como “plano B”, e sim como parte do pacote. Numa entrevista recente replicada pela Ultimate Guitar, ele explicou por que cantar rock, na prática, é um trampo bem mais desgastante do que muita gente imagina, e como isso mexe com a forma de compor e até com a maneira de sobreviver num show.
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Foto: Mascot Label – Jason Quigley
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A conversa começou com aquela observação que muita gente faz (e poucos guitarristas gostam): em geral, quem é monstro na guitarra nem sempre tem uma grande voz. Gilbert não entrou no modo “me elogia que eu aceito”; ele foi por outro caminho e falou de identidade vocal. Pra ele, voz não é só “bonita” ou “feia”, é assinatura – e mesmo quem não soa como o próprio ídolo ainda pode ter algo que funciona por ser único.
E aí ele puxa o exemplo que virou a parte mais engraçada (e honesta) do papo: Ronnie James Dio. Gilbert lembra que fez um álbum inteiro em cima disso, “The Dio Album” (2023), em que ele toca na guitarra linhas que acompanham e recriam melodias vocais de músicas do Dio no Rainbow, no Black Sabbath e na carreira solo. “Ronnie James Dio… uma das maiores vozes de todos os tempos. E eu sabia que, com a minha voz, eu não conseguia cantar como ele. Então eu usei a guitarra. Mas eu tenho o meu próprio som, e isso influencia como eu escrevo. Acho que vale a pena explorar isso, porque sempre vai te dar alguma coisa que é especial.”
– GOO
A sacada aqui não é “tocar igual ao Dio” (até porque isso não existe). É entender que, se a voz do cara era inalcançável pra ele, ainda dava para perseguir aquela musicalidade por outro lugar – e isso explica por que tanta gente que toca guitarra fala de cantor como se fosse um instrumento. No caso do Dio, então, é quase inevitável: as melodias dele às vezes parecem já vir com “linha de solo” embutida.
Gilbert também fala do lado físico do negócio, que costuma passar batido. Cantar rock, pra ele, não é só acertar nota – é sustentar volume e pressão por uma noite inteira, com banda alta, ambiente barulhento e energia lá em cima. “Ser cantor de rock é difícil. Porque, quando você canta rock, você tem que estar cantando o mais alto que você consegue a noite inteira. Acho que, pra qualquer cantor, é um trabalho muito duro.”
– CLI
Ele conta que, ao fazer o álbum “WROC” (2026), tomou cuidado pra não colocar tudo no topo da extensão vocal o tempo todo. A ideia foi alternar regiões, deixar espaço pra notas altas aparecerem onde fazem sentido, e manter partes em médio e grave também – justamente para não chegar no fim do show “sem voz” por ter tentado cantar no limite do começo ao final.
Pra fechar, ele cita uma música do disco, “Go Not Thither”, como uma das que ele mais gosta de cantar por causa do desafio: tem gritos e notas altas que funcionam pra voz dele, mas depois a linha desce, dando fôlego e contraste de registro. No fundo, é a mesma lógica que ele aplicou lá atrás com o Dio: reconhecer o que você não é, e transformar isso em método – seja com a guitarra falando por você, seja com a voz jogando no terreno onde aguenta a pancada.
– GOO