Quando “Smells Like Teen Spirit” apareceu, ela virou uma espécie de placa de “daqui pra frente é outra fase” para o rock dos anos 90. A Far Out puxa essa história por um lugar diferente do que costuma acontecer por aí: não é o riff que abre a música que dá o choque inicial, e sim a bateria do Dave Grohl, entrando como um motor e organizando o caos antes do primeiro verso.

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Foto: Palinchak @ www.depositphotos.com

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Butch Vig, produtor de “Nevermind”, descreveu a primeira vez em que viu a banda tocar a música ao vivo (ainda em fase de preparação). Ele conta que ficou tão impressionado com o Grohl e com o som da banda que esqueceu até o hábito de anotar ideia: “Eles tocaram ‘Teen Spirit’ e aquilo me esmagou de tão bom que o [Grohl] era – e de tão bem que eles soavam. Eu comecei a andar de um lado pro outro na sala… normalmente eu tomo notas, mas ali eu só estava absorvendo tudo. Eles terminaram a música e o Kurt falou: ‘E aí, Butch, o que você achou?’… e eu respondi: ‘Toca de novo.'”

A introdução dá a sensação de ser “simples”, mas é construída pra isso: ela abre espaço, empurra a banda, encaixa no verso e deixa a música com cara de inevitável. O desenho de bateria é uma peça central do impacto que a faixa causa – inclusive em quem não é do rock pesado nem cresceu com o disco.

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E aí vem o detalhe que o Grohl adora jogar na roda quando começam a endeusar a levada: “Parem de dizer que eu sou um grande baterista, porque eu sou o baterista mais básico do mundo. Se você ouvir ‘Nevermind’, o disco do Nirvana, eu puxei muita coisa da Gap Band, do Cameo e do Tony Thompson em praticamente todas aquelas músicas. Aqueles ‘flams’… é tudo disco; é só isso. Ninguém faz essa conexão.”

Isso explica por que aquela bateria funciona tão bem até hoje: ela tem peso e urgência, mas também tem groove, em uma lógica de pulso que não depende de “sujar” o som pra parecer agressivo. Dá pra chamar de rock, dá pra chamar de grunge, mas por baixo existe uma escola de bateria que nasceu pra fazer corpo se mexer.

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E talvez seja por isso que “Teen Spirit” não ficou presa em 1991: a música envelhece, o barulho da época muda, mas um bom pulso continua valendo. Grohl pode dizer que “roubou” de disco/funk; o Vig pode lembrar que pediu pra tocar de novo; o que sobrou foi uma abertura de bateria que você reconhece em dois segundos – e que ainda faz sentido quando a guitarra entra.

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