Quando a notícia da morte de Kurt Cobain se espalhou em abril de 1994, o rock inteiro entrou num tipo de suspensão estranha: era choque, luto, e uma mídia correndo atrás de detalhes como se fosse cobertura de evento. O Faith No More estava em outra novela naquele momento – sem o guitarrista Jim Martin, reorganizando a banda e tentando entender se ainda fazia sentido seguir em frente.
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Foto: Glen Laferman – Slash Records
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O disco que saiu desse período foi “King for a Day… Fool for a Lifetime” (1995), já com uma filosofia mais “tenta e vê” do que o grupo tinha feito antes. Mike Bordin chegou a resumir a crise com uma pergunta simples: depois de tudo, a banda ainda tinha algo a dizer? A resposta veio com um álbum que, pra ele, foi uma das poucas vezes em que se sentiu 100% satisfeito com o resultado.
Dentro desse pacote, “Ricochet” virou uma das faixas mais associadas a uma data específica, relembra a Far Out. A história que circula entre fãs e entrevistas é que Mike Patton escreveu a letra no mesmo dia em que a notícia sobre Cobain estourou – e isso acabou grudando na música, mesmo que ela não funcione como “homenagem” nem como relato literal.
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O detalhe mais concreto dessa ligação aparece no apelido. Em algumas setlists, “Ricochet” teria sido listada como “Nirvana”, não como uma provocação, mas como uma forma de marcar o momento em que ela foi escrita. Roddy Bottum chegou a falar disso, e ainda disse que era uma das letras preferidas dele no disco: “Foi escrita no dia em que o Kurt morreu. É só por isso que se chamava ‘Nirvana’. (…) Eu gosto dessa. As harmonias vocais são muito boas. E essa tem as minhas letras favoritas no disco.”
Quando você ouve “Ricochet” sabendo desse contexto, é difícil não encaixar a música no clima da época: o verso falando de correr duas vezes mais rápido pra ficar no mesmo lugar, e o refrão com aquela frase venenosa sobre a piada que só vira “hilária” quando alguém se machuca: “Runnin’ twice as fast to stay in the same place / Don’t catch my breath till the end of the day / And I’d rather be shot in the face / Than hear what you’re goin’ to say” (“Correndo duas vezes mais rápido para ficar no mesmo lugar / Não consigo recuperar o fôlego até o fim do dia / E eu preferiria levar um tiro na cara / Do que ouvir o que você vai dizer”), e então o refrão: “It’s always funny until someone gets hurt / And then it’s just hilarious.” (“É sempre engraçado até alguém se machucar / E aí fica hilário”).
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Patton, por outro lado, nunca pareceu confortável em transformar isso em discurso. Ele costumava deixar claro que não tinha proximidade com Cobain e, quando cutucado sobre o assunto, reagia mais ao espetáculo em torno da morte do que ao personagem “Kurt Cobain” em si. Quem tinha uma ligação pessoal mais direta era o próprio Bottum, que era amigo de Kurt – “A gente era muito amigo. Ele adorava o fato de eu ser gay, adorava estar perto disso, e ele era uma pessoa muito especial”, o que ajuda a entender por que a data ficou marcada na memória interna da banda.
Mas “Ricochet” acabou ficando com esse carimbo meio inevitável: não é “a música do Faith No More sobre Kurt Cobain”, mas é uma música que carrega a sombra de um dia em que todo mundo soube que algo grande tinha acabado. E às vezes é assim que essas coisas grudam: não pelo tema declarado, e sim pelo momento em que foram escritas – quando a sala ainda estava com a TV ligada e ninguém sabia direito o que dizer.
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