Van Halen sempre foi uma banda com um “motor” muito claro: Eddie e Alex tocando como se um já soubesse o que o outro vai fazer meio segundo antes. Só que, quando a história chega nos anos 2000, esse mesmo núcleo que segurou tanta coisa por décadas também aparece como o lugar de onde saíram algumas declarações bem duras, e uma delas mirou justamente num cara que passou a vida toda ali do lado, fazendo o que precisava ser feito.

Van Halen – Mais Novidades
Foto: Reprodução – The Super Dome Tokyo ’89

– CLI










O alvo foi Michael Anthony. Eddie soltou em conversa com a Billboard que, por mais anos do que deveria, o baixista teria contribuído quase nada além de linhas que precisavam ser ensinadas nota por nota. A acusação não é “ele tocava simples”, que é outra conversa. Eddie descreveu como se o Anthony dependesse dele até pra decorar o básico antes de uma turnê.

“Cada nota que o Mike tocou na vida, eu tive que mostrar pra ele como tocar. Antes da gente sair em turnê, ele vinha pra minha casa com uma filmadora e eu tinha que mostrar pra ele como tocar todas as partes.”

– GOO












É o tipo de frase que tem duas camadas. A primeira é óbvia: o Eddie dizendo “eu carrego isso aqui nas costas”. A segunda é mais feia: isso ter vindo à tona justamente numa fase em que o Van Halen estava se reorganizando e, pouco depois, o Wolfgang entrou no lugar do Michael Anthony. A fala acaba soando como justificativa pública para uma troca que já era sensível por si só.

O curioso é que, se você pegar a história toda, o Van Halen sempre teve esse lado “família e negócios” misturado. Como aponta a Far Out, com o David Lee Roth, nunca foi segredo que a relação não era de amizade – e existe até aquela história de que o motivo prático para ele entrar no começo tinha a ver com o sistema de PA. Depois veio a fase com Sammy Hagar, que deu outra cara pra banda e rendeu hinos enormes, mas também não foi exatamente um passeio sem briga. Quando a poeira baixa, sobra o padrão: todo mundo que passa ali parece, em algum momento, virar personagem de atrito.

– CLI










E aí entra um ponto importante: essa versão do Eddie não ficou sem resposta. Sammy Hagar já rebateu esse tipo de acusação mais de uma vez, e quem acompanha a banda sabe que esse assunto vira “cabo de guerra” de memória – cada um conta do jeito que lembra, ou do jeito que quer que seja lembrado. O Michael Anthony, por outro lado, nunca vendeu a ideia de que era o virtuose do grupo; o papel dele sempre foi outro.

Porque, goste ou não, tem uma assinatura do Van Halen que não é só a guitarra do Eddie: aqueles backing vocals agudos do Michael Anthony estão em todo lugar. E, em banda grande, isso também é instrumento. Você pode achar que as linhas de baixo não eram o centro do show, mas o encaixe de vozes é parte do som que as pessoas reconhecem na hora – e isso não se “ensina com filmadora” do mesmo jeito que um riff.

– GOO












A declaração do Eddie acaba funcionando mais como retrato do clima interno do que como “veredito” musical definitivo. É um cara talentoso, doente e desgastado naquela fase, olhando pra trás e apontando culpados por coisas que, para ele, travaram a banda em vários momentos. Só que, mesmo que o Anthony não fosse um baixista cheio de firula, ele era o tipo de músico que segura a onda, aparece todo dia e faz o trabalho render, e em qualquer banda com egos do tamanho de um estádio, isso conta.

– CLI