Robert Smith voltou a falar de uma coisa que, no fundo, todo compositor sabe: você escreve pra você, mas também quer que a música chegue do outro lado. Ele diz que é um momento estranho quando as pessoas finalmente começam a ouvir o que você fez, porque, se você não se importa minimamente com a recepção, fica parecendo pose de artista acima do bem e do mal.
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Foto: Midiorama
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A partir daí, ele puxa para um tipo de influência que não tem nada de “virtuosismo espalhafatoso”. Entre os nomes que ele cita como referência para o jeito dele escrever e construir clima, aparece Nick Drake – e com um detalhe de memória bem específico: ele diz que ouviu “Five Leaves Left” (1969) quando tinha dez anos e que aquilo foi ficando mais importante com o tempo.
Smith coloca Drake como um “inverso britânico” de Jimi Hendrix: não pelo tamanho do impacto ou pelo status de “ídolo”, mas pelo jeito. Hendrix é explosão; Drake, para ele, era o oposto: um cara quieto, recolhido, de escrita direta, que te pega pela simplicidade. Ele também admira uma postura que, na leitura dele, Drake tinha: não parecer preocupado com o que as pessoas iam pensar, nem com a necessidade de ser famoso. “Uma coisa que também me atraía na arte dele era que ele não parecia preocupado com o que as pessoas pensavam dele. (…) E acho também que, por ele ter tido uma morte prematura como Jimi Hendrix, ele nunca teve a chance de comprometer o trabalho inicial. É um romantismo mórbido, mas tem algo atraente nisso.”
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O ponto mais interessante, relembra a Far Out, é que Smith não descreve Drake como “simples” no sentido de limitado. Ele fala de uma simplicidade que dá trabalho, porque chega num lugar que muita gente tenta e não consegue: dizer muito com pouco, sem enfeitar. A música que ele usa como exemplo é “Time Has Told Me”, justamente por soar direta e segura, mas ser difícil de copiar na prática.
Quando ele fala desse tipo de influência, dá pra entender por que Drake encaixa tão bem no universo do The Cure. Não é uma questão de “soar parecido”. É a ideia de segurar a emoção sem fazer discurso, e de confiar que uma canção pode ser intensa mesmo quando está andando baixo, quase em silêncio.
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E talvez seja por isso que a comparação com Hendrix funciona como imagem, não como competição: um representando o choque elétrico, outro representando a lâmina fina. Robert Smith parece olhar para Drake como alguém que mostrou, cedo, que dá pra ser devastador sem levantar a voz – e isso, pra um compositor, às vezes vale mais do que qualquer solo.
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