Chris Cornell nunca pareceu muito interessado em bancar o “porta-voz” de cena nenhuma. Mesmo quando o som de Seattle virou vitrine mundial, ele continuou com aquele jeito de escrever mais por imagens e sensações do que por discurso, e com pouca paciência pra pose, especialmente a pose de estrela que se leva a sério demais.

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Foto: Jeff Lipsky

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Em entrevistas da época, ele falava com naturalidade sobre como o rock deveria ter um pé no chão, mesmo quando a música ficava grande. E era justamente por isso que, às vezes, ele soltava umas farpas que não tinham nada de fofoca: eram mais um incômodo com um certo tipo de postura pública.

Num desses comentários, Cornell colocou o dedo numa categoria que o irritava: o “rockstar arrogante” ou “artístico demais”, daqueles que viram quase intocáveis dentro da indústria. E citou dois exemplos na lata: “Eu odeio rockstars arrogantes ou ‘artísticos’ demais. Muita gente no negócio da música vira tão idolatrada; os David Byrnes e os Bonos. O Prince é idolatrado pra caramba também; mais do que o vocalista do Poison, ou o Mötley Crüe, seja lá quem for o vocalista deles.”

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A fala é curiosa por dois motivos. Primeiro porque ele não está falando de “talento” ou de “melhor cantor”: é uma crítica à aura, ao pedestal, à forma como certos nomes passam a ser tratados como gênios acima do bem e do mal. Segundo porque ele junta duas figuras que muita gente associa a prestígio artístico – Bono e David Byrne – com uma comparação que puxa o debate de volta pra realidade do rock como entretenimento também, sem hierarquia de “classe”.

No caso do Bono, dá pra entender por que Cornell escolheu esse alvo: o U2 sempre teve essa coisa de “mensagem”, de postura pública, de falar de fé, política e significado. Pra alguém com alergia a sermão, isso pode soar como gente demais no microfone e música de menos no chão.

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Já David Byrne entra por outra via: o “artista” que vai ficando cada vez mais idiossincrático, mais conceito, mais personagem, até o público confundir onde termina a música e começa a performance. Cornell parecia enxergar aí uma linha fácil de cruzar: o cara deixa de ser um músico num palco e vira uma entidade cultural.

Nada disso diminui o que cada um fez. Só mostra o que irritava Cornell: quando a idolatria vira blindagem e o rock vira um lugar onde alguns podem falar qualquer coisa sem serem questionados – e outros ficam sendo tratados como “menores” por não terem o mesmo verniz.

A fala talvez diga mais sobre o próprio Cornell do que sobre os citados. Ele podia subir num palco grande, cantar como quem arranca o teto e ainda assim desconfiar de quem transforma isso em altar. E, vindo dele, a crítica não parece pose de “purista”: parece só uma aversão bem humana a gente que acredita demais no próprio mito.

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