Quando Anika Nilles recebeu a ligação de Geddy Lee e Alex Lifeson, ela diz que tomou um susto real. Imagina que um dia você, do nada, é convidada para ocupar um lugar que parecia intocável desde 2020, quando Neil Peart morreu.
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Na entrevista que ela deu ao site holandês Slagwerkkrant tem um detalhe que foge do roteiro esperado. Perguntada se já conhecia o som do Rush e a bateria do Neil, Anika respondeu com honestidade: conhecia Neil, sim – e principalmente por uma música. “Claro que eu conhecia o Neil como baterista, especialmente por causa da música ‘Tom Sawyer’, que é um clássico no mundo da bateria. Mas vou ser honesta: eu nunca ouvi muito a música do Rush.”
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Isso muda o tom da história, porque não é aquela narrativa padrão de “cresci ouvindo a banda e esse era meu sonho”. Ela cresceu com rock e música progressiva/sinfônica, mas diz que não tinha mergulhado no catálogo do Rush. Quando veio o convite, o primeiro passo foi bem pragmático: focar nas músicas que eles pediram para o teste e, a partir daí, correr atrás do resto.
Na mesma conversa, ela deixa claro onde o Rush é diferente do que ela viveu com Jeff Beck, por exemplo. Com Beck, o trabalho era muito mais em torno de improviso, escuta e espaço para o guitarrista brilhar. Com Rush, ela descreve outra exigência: “Com Rush, quase todas as partes de bateria foram deliberadamente compostas pelo Neil.” Ou seja, não é só “tocar bem”. É tocar uma parte que já foi pensada como peça de composição.
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Por isso, quando ela fala dos primeiros ensaios no estúdio da banda no Canadá, o ponto central não é “quantas músicas aprendeu”, mas o tipo de conversa que rolou ali. Ela diz que o assunto do “feeling” do Neil voltava o tempo todo e que era menos sobre o que tocar e mais sobre como tocar “do jeito certo”, com respeito ao que os fãs conhecem de cor.
E esse respeito aparece no jeito como ela descreve a margem de liberdade. Em muitas músicas, ela pretende tocar a parte do Neil “exatamente”, mas admite que, se houver espaço para colocar algo a mais, ela coloca. Só que o foco principal, segundo ela, está em capturar a energia que caracterizava o Neil: “Eu foco principalmente na energia que era tão característica da forma de tocar do Neil.”
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Tem também um lado bem “nerd de bateria” que ajuda a entender o tamanho da missão. Anika diz que reconstruiu o próprio kit em casa para estudar as músicas do jeito certo e montou um set equivalente no estúdio de ensaio do Rush no Canadá, pensando nas “cores” que a música pede. Ela ainda comenta que até as baquetas precisaram ser ajustadas, porque agora ela toca rock com mais força do que no trabalho dela como baterista de fusion.
O resultado é uma história que começa com uma frase simples – “Tom Sawyer era a referência” – e deságua num desafio enorme: aprender dezenas de músicas, memorizar detalhes, respeitar arranjos que são quase “assinatura” e, ao mesmo tempo, soar viva no palco. E talvez seja por isso que a honestidade dela funciona aqui: ela não vende um “mito”. Ela descreve trabalho.
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