A história do rock e do jazz está repleta de encontros improváveis. Um dos mais curiosos envolve dois nomes gigantes da música do século 20: David Crosby e Miles Davis. Ídolo declarado do ex-integrante do Crosby, Stills & Nash, o trompetista decidiu regravar “Guinnevere” – e a reação inicial do compositor passou longe do entusiasmo.

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Lançada no álbum de estreia homônimo do trio, em 1969, “Guinnevere” se tornou uma das composições mais celebradas de Crosby. Em entrevista à Rolling Stone em 2008 (via Ultimate Guitar), ele chegou a afirmar que talvez fosse sua melhor canção. O colega Graham Nash reforçou a importância da faixa, destacando a profundidade artística do parceiro. Não à toa, a música chamou a atenção de Miles Davis, que gravou sua própria versão em 1970. A releitura só veria a luz do dia em 1979, no álbum “Circle in the Round”.

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O problema é que Crosby mal reconheceu sua própria obra. Relembrando o episódio em entrevista ao Professor of Rock, ele contou que Miles o abordou no Village Gate, em Nova York, e anunciou: “Fiz uma música sua”. A curiosidade virou perplexidade quando ouviu a gravação. “Não dá para dizer que é ‘Guinnevere’. Não é a mesma melodia, não são os mesmos acordes, não é a mesma afinação. Não há nada que te faça saber que é ‘Guinnevere’. Se ele não a chamasse assim, você nunca associaria uma coisa à outra”, afirmou.

O cantor foi ainda mais direto ao falar sobre sua reação naquele momento: “Eu não disse nada. Eu não fiquei nada feliz. Nós não combinamos bem naquela primeira vez.” A versão de Davis mergulhava em atmosferas experimentais, com clima pastoral e elementos pouco convencionais, distante da estrutura folk original da composição.

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Curiosamente, o tempo tratou de mudar essa percepção. Décadas depois, em 2017, Crosby escreveu nas redes sociais que finalmente havia entendido a releitura de Miles. Segundo ele, ao ouvir a faixa com mais atenção, percebeu uma conexão artística que atravessava espaço e tempo, mesmo entre duas mentes tão diferentes.

A relação entre os dois, aliás, era mais profunda do que se imaginava. Crosby revelou que Davis teve papel decisivo para que sua antiga banda, os The Byrds, assinasse contrato com a Columbia. Quando executivos da gravadora perguntaram ao trompetista o que achava do grupo, ele teria sido direto: “Contratem”. Crosby só descobriu isso anos depois.

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