Se você já ouviu “Master of Puppets” (1986) e ficou com a sensação de que as guitarras estão “no trilho” de um jeito quase mecânico, a explicação passa menos por milagre e mais por trabalho de estúdio – e por uma obsessão bem específica de James Hetfield com a base. Quem contou isso foi Flemming Rasmussen, produtor do disco, lembrando como a banda gravava na era da fita, sem computador “salvando” nada no pós.

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Rasmussen reforça que o álbum foi registrado em 24 canais analógicos e que não havia aquela vida fácil de hoje, com recorte e cola a torto e a direito. A ordem também importava: bateria primeiro, depois as bases de guitarra, e só então o baixo. Ele diz que, em metal, faz sentido o baixo “seguir” o riff da guitarra, não o contrário – e que isso, no caso do Cliff Burton, funcionava ainda melhor, porque o Cliff tocava muito reagindo ao que estava ouvindo.

A parte que mais chama atenção, porém, é o detalhe sobre as guitarras rítmicas. Rasmussen afirma que, nos discos que fez com o Metallica, quem gravava as bases era sempre o Hetfield, e que em “Master of Puppets” isso foi total. A explicação dele, publicada na Ultimate Guitar é longa, mas vale a íntegra porque mostra como isso funcionava na prática, com troca de equipamento e dobra de timbre:

“Nos álbuns que eu fiz, o James tocou todas as guitarras rítmicas. O Kirk não toca uma única guitarra base em ‘Master Of Puppets’. A gente montava o equipamento do James e o equipamento do Kirk, e o James alternava entre os stacks para fazer as partes. A maioria das guitarras principais começou na Firebird do James e depois a gente trocava guitarras o tempo todo. Na maior parte das vezes, a gente começava com a base do James, com duas trilhas em estéreo, para ter a guitarra principal. Depois a gente dobrava isso em uma trilha tocando no equipamento do Kirk, que às vezes era um power amp e um pré Marshall. Então a gente tinha duas bases duplas fazendo a parte do James, e aí ele tocava a parte do Kirk no equipamento do Kirk.”

– GOO












Ou seja: mesmo quando você escuta “duas guitarras” na base, Rasmussen descreve o Hetfield como o cara executando tudo, inclusive “no personagem” do outro lado, usando a estrutura do Kirk para chegar naquele recorte de timbre. É uma forma bem direta de manter unidade de palhetada e de tempo, mas ainda assim variar a cor.

E aí vem a opinião sem freio do produtor sobre o Hetfield como guitarrista rítmico. Em vez de falar em “bom para metal” ou “bom para banda”, Rasmussen coloca o cara no topo do planeta, e do jeito que ele fala, dá pra imaginar a segurança com que o James gravava aquelas bases: “O James consegue tocar por cima de qualquer coisa. Ele é o mestre do ritmo. Ele é preciso pra caramba. Isso nunca foi um problema. Eu considero o James o melhor guitarrista de base do planeta. Ele é inacreditável.”

– CLI










Essa história ajuda a tirar um pouco do “mistério” e colocar “Master of Puppets” no lugar certo: um disco gigante, mas feito com método. O som não caiu do céu. Foi fita, sequência de gravação, execução repetida até ficar redondo, e um cara que, segundo o próprio produtor, não largava a base da mão nem quando estava “tocando como o outro guitarrista” para fechar o quebra-cabeça.

– GOO