Quando Anika Nilles fala do convite para tocar com Geddy Lee e Alex Lifeson, ela não descreve isso como “troca de banda” nem como um salto de carreira no sentido mais óbvio. O que aparece na entrevista é outra coisa: a noção de que o papel do Neil Peart no Rush vai muito além de tocar firme e rápido. Para ela, a bronca é entender por que aquelas partes soam daquele jeito, e por que viraram referência.

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Foto: YouTube Oficial

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Ela até admite na conversa com a Slagwerkkrant que não era uma ouvinte habitual do Rush antes do convite, e que precisou mergulhar no catálogo a partir do momento em que começou a estudar as músicas do teste e, depois, do repertório da turnê. Ela teve que ir, disco a disco, analisando para entender como Neil mudava com o tempo e assimilar o que mudava de fase para fase.

O ponto que ela volta a martelar é simples e sabido por qualquer fã: no Rush, bateria não fica no fundo. As partes do Neil são pensadas como peça de composição, e não como acompanhamento genérico. Por isso, quando ela descreve os ensaios com Geddy e Alex, a conversa gira mais em torno do jeito de tocar do Neil do que da “nota certa” em si. O foco é chegar no “feeling”.

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A melhor frase dela sobre isso vem no final da entrevista, quando ela tenta explicar por que esse trabalho não cabe num rótulo único: “Como eu disse, eu cresci com rock e música progressiva, e nos últimos anos eu toquei principalmente fusion, que também é bem complexa. Em termos de tocar, não tem nada de novo, mas existe um momento em que eu preciso tocar com uma certa intensidade. O Neil batia forte, mas ele também tinha uma energia específica e um feeling muito particular para o groove. Ele tocava o ride de um jeito único, e eu também acho que o som de caixa dele é lendário. Então eu realmente tenho que entrar na cabeça do Neil para fazer a música soar do jeito que ele fazia. Eu preciso entrar nessa bolha nerd. O Neil era um músico muito flexível. Ele definitivamente não era só um baterista de rock. Ele tinha swing e feeling para blues, reggae, funk…”

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Isso ajuda a entender por que ela trata essa turnê como um tipo de imersão. Ela vem de um universo mais ligado à fusion e a coisas complexas, então “dificuldade técnica” não é o centro da conversa. O que muda é a intensidade e o encaixe: como dar peso sem destruir o desenho, como segurar o groove do jeito certo, como fazer soar natural aquilo que, no papel, é cheio de detalhe.

Até a parte prática entra nesse raciocínio. Ela comenta que está reconstruindo o kit para cobrir as cores que as músicas exigem, que montou set equivalente no estúdio de ensaio no Canadá para estudar do jeito certo, e que até mexeu em detalhes nas baquetas, porque tocar rock nesse nível pede outra pancada. Para essa turnê dar certo, não basta tocar limpo e decorado. Tem que soar como Rush – e isso passa por entender que o Neil tocava rock, sim, mas com um vocabulário que ia muito além do rótulo.

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