Monsters of Rock, 1988, turnê de estádio nos EUA. Na mesma noite, Van Halen e Scorpions no topo, e uma sequência que hoje parece até “bom demais pra ser verdade”: Kingdom Come, Metallica e Dokken no pacote. Don Dokken voltou a falar daquele período numa entrevista em vídeo com Tom Zutaut, replicada pela Ultimate Guitar – e a lembrança dele tem menos nostalgia e mais aquela sinceridade de quem sabe exatamente quando tomou um banho de energia no palco.

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Foto: buurserstraat38 @ www.depositphotos.com

Ele diz de forma franca e objetiva: o Metallica “chutou a nossa bunda” e “nos esmagou”. Não é que o Dokken fosse uma banda pequena ou sem repertório; é que o set do Metallica, ali na fase do “…And Justice for All”, vinha com uma agressividade e uma temperatura que mudavam o humor do estádio. E aí entrava o problema prático: como você tenta puxar um “In My Dreams” logo depois de um rolo compressor?

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Segundo ele, a diferença era tanto de “peso” quanto de encaixe com o clima do público. Don diz que chegou a pedir ao empresário para inverter a ordem, porque a combinação não ajudava o show do Dokken. E ainda tinha um detalhe curioso: as duas bandas eram agenciadas pelos mesmos caras, Cliff Burnstein e Peter Mensch, o que tornava o pedido dele meio “possível de ser tentado”, mesmo que não fosse simples.

“É difícil tocar com o Metallica. (…) Eles iam logo antes da gente, e eu pensei… a gente não é pesado como eles. (…) Eu falei: ‘Cliff, dá pra colocar eles depois da gente? É meio difícil subir e cantar ‘In My Dreams’ depois do show do Metallica’.”

Até aí, é uma memória de turnê: a banda que te precede deixa o palco fervendo, e você precisa se virar com outro tipo de música, outra proposta, outra dinâmica. Só que a conversa escorrega pra um episódio mais específico, e aí entra Jason Newsted, recém-chegado ao Metallica como sucessor do Cliff Burton, ainda tentando achar espaço dentro da banda e dentro das gravações.

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Don conta que, numa noite, Newsted apareceu no quarto dele com uma faixa pra tocar e pediu opinião “como produtor”. Era uma pergunta objetiva: o baixo está baixo demais? E o engraçado é que Don diz que respondeu do jeito mais literal possível, sem maldade, mas com aquela franqueza que dá vontade de engolir depois.

“Ele disse: ‘Me dá sua opinião, como produtor. Você acha que o baixo está baixo demais?’ E eu respondi: ‘Sinceramente, eu não saberia, porque eu não consigo ouvir baixo nenhum.’ (…) Eu não quis ser grosso. (…) Depois ele contou pro Kirk e pro resto da banda, e eu pensei: ‘Putz, era melhor eu ter ficado quieto.'”

A história bate numa tecla que virou quase “lenda técnica” do “…And Justice for All”: muita gente já comentou ao longo dos anos que o baixo é difícil de perceber na mix. Don até generaliza dizendo que o Metallica não coloca muito baixo e que o peso vem mais das guitarras e do bumbo – e pronto, tá aí o tipo de conversa que nasce no corredor do hotel e vai morar na cabeça dos fãs por décadas.

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E tem uma imagem boa nisso tudo: um vocalista de glam/hard metal, tentando salvar o próprio set numa noite complicada, e um baixista de uma banda em ascensão pedindo validação no quarto de outro músico – e ouvindo uma resposta que, goste ou não, virou o resumo perfeito de um disco inteiro.