A rivalidade entre Howlin’ Wolf e Muddy Waters virou folclore com o tempo. Tem versão que pinta os dois como se estivessem tentando sabotar a carreira um do outro em toda esquina, quase como se o blues tivesse sido “dividido em dois” por causa deles. Só que, quando você vai para os relatos de quem estava ali, a história aparenta ser mais coisa de bastidor: competição, vaidade, ciúme e aquela disputa por espaço típica de cena musical.
Foto: King Of Chicago Blues – Reprodução
– CLI
Os dois vinham do Mississippi, carregavam o delta blues no corpo e chegaram a Chicago no momento em que o som virou elétrico, barulhento, urbano. E aí não tem mistério: quando você tem dois caras grandes ocupando o mesmo território, a comparação começa sozinha, e qualquer empurrãozinho vira faísca.
Parte desse empurrão veio de dentro da Chess. A gravadora tinha interesse em criar narrativa, e o clima de “um contra o outro” rendia conversa, rendia curiosidade e rendia público. Até a dinâmica de estúdio ajudava a alimentar isso, com músicos circulando de uma sessão para outra e todo mundo comentando tudo.
Foto: Moanin In The Moonlight – Reprodução
– GOO
Um bom termômetro dessa tensão aparece numa lembrança atribuída a Willie Dixon, que escrevia para os dois e sabia exatamente como o jogo era jogado. Ele contou, em fala publicada na wikipedia, que o Wolf cobrava quando via Dixon entregar uma canção forte para o Muddy: “De vez em quando o Wolf mencionava o fato de: ‘Ei, cara, você escreveu aquela música pro Muddy. Como é que você não vai escrever uma assim pra mim?’ Mas quando você escrevia pra ele, ele não gostava.”
Esse tipo de frase já explica bastante muita coisa: não era só “música”. Era prestígio, era atenção da gravadora, era quem estava com a melhor banda, quem tinha o melhor compositor, quem puxava mais público. E quando a disputa fica nesse nível, qualquer detalhe vira provocação.
– CLI
Só que o relato mais humano vem de Hubert Sumlin, guitarrista histórico do Howlin’ Wolf, quando ele fala que a coisa foi exagerada no imaginário e que houve um momento claro de virada. Ele descreveu o clima de acusações e picuinhas e depois contou do dia em que os dois fizeram as pazes, conforme reproduziu a Ultimate Guitar:
“Claro. Eles tinham ciúme um do outro; eram inimigos: ‘Você roubou minhas coisas.’ ‘Você fez isso.’ ‘Você fez aquilo.’ Era interminável porque eles eram os dois maiores caras em Chicago, e estavam sempre discutindo e competindo sobre quem era o número um. Eu nunca vou esquecer o dia em que a gente tocou no Ann Arbor Blues Festival, e Wolf e Muddy sentaram, conversaram e viraram amigos. Eles apertaram as mãos e disseram: ‘Sem mais inimigos.’ Isso me deixou tão feliz que eu fui lá e peguei uma cerveja. Isso é um negócio que a gente faz todo dia e ama demais, e eu nunca entendi esse ciúme. É música. Quem liga pra quem é o melhor?”
– GOO
E o mais interessante é que o “fim da rivalidade” não ficou só na conversa bonita. Em 1967 e 1968, esses encontros também viraram discos de estúdio com clima de reunião de gigantes, como Super Blues e The Super Super Blues Band, projetos que juntaram nomes enormes do blues e registraram essa turma tocando sem precisar medir quem era o rei da noite.
A parte mais útil dessa história é bem simples: rivalidade existe, ego existe, disputa existe – principalmente quando o palco é pequeno demais para dois caras grandes. Só que também existe a hora em que o músico cansa, olha para o lado e entende que vale mais tocar do que carregar birra. Wolf e Muddy demoraram, mas chegaram nesse lugar. E o blues agradeceu.
– CLI