Quando Roger Waters saiu do Pink Floyd, não foi aquele “cada um pro seu lado e tá tudo bem”. O fim já vinha sendo ensaiado havia um tempo, porque a dinâmica interna tinha mudado: a banda que funcionava como um organismo coletivo foi virando, na prática, um projeto guiado por uma visão só e isso cobra um preço, principalmente quando o grupo já está no tamanho de um Pink Floyd.
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Foto: Reprodução – Live At Pompeii
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O estopim mais visível costuma ser o período de “The Wall” e “The Final Cut”. Conforme explica a Far Out no primeiro, a coisa já era tensa; no segundo, a sensação de “banda” ficou ainda menor, com o Waters dominando letras, conceito e direcionamento, enquanto os outros acabaram empurrados para um papel mais de execução do que de decisão. Esse clima também aparece no fato de Richard Wright ter sido afastado durante a fase de “The Wall” (ele volta para a turnê como músico contratado), o que dá a medida de como a casa estava com pouca paciência e muita pressão.
Quando Waters formaliza a saída, ele não fala como alguém “cansado de turnê” ou “de saco cheio de fama”. Ele fala como alguém que acreditava que o Pink Floyd, daquele jeito, não tinha mais para onde ir e que o nome deveria ser aposentado junto: “No meu pedido ao Tribunal Superior eu chamei o Pink Floyd de uma ‘força criativa esgotada’.”
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Só que essa leitura não era compartilhada pelos outros. David Gilmour e Nick Mason queriam continuar, e aí a discussão deixa de ser só musical e vira estrutura, marca, direitos, futuro. Waters tentou impedir o uso do nome Pink Floyd sem ele, o que abriu um conflito jurídico pesado e bem desgastante, enquanto o restante da banda corria para se reorganizar e provar que conseguia existir como Pink Floyd mesmo sem o principal letrista e “diretor” daquele período.
No meio dessa briga tem um detalhe que costuma ser mal-entendido: a discussão não era “quem escreveu mais” ou “quem toca melhor”. Era sobre autoria de identidade. Waters tinha um argumento óbvio a favor dele: ele era a cara das letras e dos conceitos nos últimos anos. Mas o som do Pink Floyd não era só letra: Gilmour era parte central do vocabulário musical, e Wright (mesmo fora temporariamente) era um componente do timbre que as pessoas reconhecem em dois segundos.
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A disputa pelo nome não durou para sempre. Em 1987, Waters desistiu da ação, e a banda seguiu com Gilmour e Mason à frente (com Wright retornando depois) o que, na prática, foi a confirmação de que a separação não era só “saída de um integrante”, mas uma divisão de visão de mundo sobre o que o Pink Floyd era e sobre quem tinha o direito de dizer isso publicamente.
O curioso é que, olhando em retrospecto, a saída do Waters parece menos uma explosão e mais uma conclusão: uma banda que já vinha funcionando com fricção, com o nome carregando um peso gigante e com a música presa numa disputa de comando. Ele queria fazer algo diferente do que achava que os outros conseguiriam (ou aceitariam) fazer; os outros não queriam jogar fora o que tinham construído. Aí você tem o ingrediente clássico: “diferenças criativas”, só que numa escala de estádio, contrato e ego histórico.
– GOO
E é isso que dá o tom da história: não foi uma briga por um riff ou por uma linha de baixo. Foi uma briga pelo volante e, quando ninguém aceita ir no banco de trás, o carro se divide em dois.