Zakk Wylde tem um jeito direto de explicar as coisas: ele não fica filosofando muito, ele parte pra pegar a guitarra e demonstrar o que está acontecendo. Foi assim num papo com Chris Garza, reproduzido na Tenho Mais Discos Que Amigos, em que ele primeiro voltou a 1988, ao começo da parceria com Ozzy Osbourne em “No Rest for the Wicked”, e contou de onde veio a faísca de “Miracle Man”. Segundo ele, a inspiração veio de “Foxy Lady”, do Jimi Hendrix – e a reação do apresentador foi aquela clássica de “caramba, nunca tinha percebido”.
Black Sabbath – Mais Novidades
– CLI
A parte boa é que Zakk não fica só no “foi inspirado”. Ele explica como enxerga isso, com um raciocínio que vale para qualquer músico que aprende ouvindo disco e tocando em cima. E é aí que ele chega na comparação que mais rende conversa. Depois de falar do Hendrix e do Ozzy, Zakk toca um trecho de “N.I.B.”, do Black Sabbath, e emenda “Sunshine of Your Love”, do Cream, para mostrar como os riffs se parecem. Do jeito que ele faz, fica difícil não ouvir o parentesco. Se é “chupinhada”, se é influência, se é DNA do rock – cada um escolhe a palavra que quiser, mas a semelhança está ali na mão.
– GOO
Essa observação não fica restrita só ao vídeo de Zakk. Num especial sobre o álbum de estreia do Black Sabbath, a Rolling Stone também comentou que o riff pesado de “N.I.B.” lembra “Sunshine of Your Love”. A revista trata isso como parte do contexto do disco, ainda naquele período em que a banda tocava residências longas e enchia o set com jams, onde muita ideia nascia no improviso.
E o mesmo texto ajuda a explicar por que Cream estava no radar deles de forma bem concreta. Geezer Butler conta que viu o grupo três vezes em Birmingham e descreve o impacto que Jack Bruce teve no jeito como ele pensava o baixo. O trecho é ótimo porque mostra que não era “influência distante”, era coisa de ir ver ao vivo e sair diferente:
“Eu vi o Cream três vezes quando eles tocaram em Birmingham. Jack Bruce definitivamente abriu meus olhos sobre o que um baixista poderia fazer ao vivo. Eu fui ver o Cream principalmente por causa do Clapton, sem saber muito sobre o Bruce e o Ginger Baker, e embora a banda inteira tenha me impressionado, eu fiquei hipnotizado com o jeito que o Jack Bruce tocava. Eu não sabia que um baixista podia fazer aquelas coisas, preenchendo espaços onde normalmente a guitarra base estaria. Mais tarde, eu fui ver o Ten Years After, e o Leo Lyons também me impressionou muito, então eu diria que uma mistura de Bruce e Lyons foram minhas principais influências em estilo e abordagem.”
– CLI
O vídeo do Zakk não é uma tentativa de provar alguma tese. Na verdade, ele apenas está mostrando como riffs se comunicam, como um vira ingrediente do outro e como isso atravessa décadas sem pedir licença. Ele começa no Hendrix, passa pelo Ozzy e termina no Sabbath encostando no Cream – e, quando você percebe, está exatamente no tipo de conversa que rock sempre gerou: você ouve, compara e decide com o próprio ouvido.
Foto: JDunbarPhoto @ www.depositphotos.com
– GOO